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  • Alexandre Barbosa

Embarcados

O navio era da época da Segunda Guerra Mundial. As cobertas, local que serve de dormitório, tinham o teto baixo e eram repletas de beliches e armários. Corredores estreitos e, claro, com ventilação insuficiente para manter a temperatura agradável, dava a exata sensação de como se sentia a tropa que o Custódio de Melo transportava, na época da guerra.

O regime de água proporcionava um banho peculiar: Éramos 217 jovens, por volta dos 20 em poucos anos que, enfileirados, esperavam a vez de entrar para se molhar, sair para ensaboar-se e voltar para tirar o sabão.

Entretenimento? Claro! Usávamos a famosa “sala de mal-estar”, ou Praça D’Armas dos GM (Guardas-Marinhas), como era oficialmente denominada. Uma TV, acho que à válvula, um aparelho de videocassete, um 3 em 1 para ouvir músicas e algumas mesas de xadrez, dama e similares.

E assim fomos, por quase 6 meses e por mares nunca antes navegados. Lembro que durante a travessia do Atlântico, passamos 10 dias sem ver sinais de terra.

Bem… estávamos em 1985 e, obviamente, o celular ainda não havia sido inventado. Fazíamos contato com a família quando chegávamos em algum porto, usando fichas, orelhões ou ligação a cobrar.

No primeiro porto nos Estados Unidos, Baltimore, comprei um aparelho de rádio amador e graças a minha certificação e os esforços do Comandante Otto, tripulante do navio, conseguimos instalar uma antena vertical na popa do Custódio e, a partir daí, a rede de radioamadores conectava-nos com nossas famílias, através do phone-patch, tecnologia incrível para a época! E então, foi criada mais uma fila, além do banho e do rancho: a fila para falar com a família, através do radio do Santos Barbosa.

Dois componentes importantes eram usados para estarmos bem, além dos portos que visitávamos, a DISCIPLINA e a ROTINA.

Tínhamos uma agenda de atividades diárias: exercícios físicos, aulas, palestras, apresentações da banda de música, estudo e, claro, esportes. Essas atividades só eram suspensas se o mar estivesse muito, mas muito mesmo, agitado.

Hoje, “confinados” em casa, lembro dessa época com saudade e como uma forma atenuante de avaliar o período que estamos passando.

Diferentemente da maioria da população brasileira, estamos instalados confortavelmente em nossas casas equipadas com TVs enormes, wi-fi, entretenimento streaming com opções variadas e ainda com a possibilidade de vídeo conferência para matar a saudade.

E ainda assim, se eu fosse aconselhar você, diria: Mantenha uma rotina! Defina horários específicos para todas suas atividades. E tenha disciplina!

Se está fazendo home office, estipule os intervalos e o fim do seu expediente, separe um tempo para algum exercício físico, para leitura, para ver TV ou alguma série/filme, para aprender ou aprofundar-se em algum assunto.

Ainda que você ache ruim ter que ficar em casa, pode ser enriquecedor! Depende de você!

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